Uma noite mal dormida não é insónia. A insónia é uma dificuldade persistente em adormecer, em manter o sono ou um despertar demasiado cedo, que se mantém apesar de haver oportunidade e condições para dormir — e que deixa marcas no dia seguinte.
É uma das queixas mais frequentes em consulta, muitas vezes desvalorizada como um problema menor. Não é. O sono é uma função clínica, e a insónia tem mecanismos, consequências e tratamento próprios.
O que é, ao certo
As classificações internacionais — a CID-11 da Organização Mundial da Saúde e o DSM-5-TR — definem a perturbação de insónia por três elementos: a dificuldade com o sono, a sua repercussão durante o dia, e a persistência. Fala-se de insónia crónica quando as queixas surgem, em regra, pelo menos três noites por semana e se mantêm há três meses ou mais.
A distinção é importante porque separa o sono ocasionalmente perturbado — por um período de stress, uma viagem, uma preocupação passageira — daquilo que se instalou como padrão e que dificilmente se resolve sozinho.
As consequências durante o dia
A insónia não se mede apenas pelas horas dormidas. Mede-se sobretudo pelo que deixa no dia: cansaço, irritabilidade, dificuldade de concentração e de memória, humor em baixo e uma preocupação crescente com o próprio sono. É frequentemente esta repercussão diurna, e não a contagem de horas, que traz a pessoa à consulta.
O sono é uma função clínica. A insónia tem mecanismos, consequências e tratamento próprios — não é falta de vontade nem um problema menor.
O mecanismo — um estado de alerta que não desliga
O modelo que melhor explica a insónia crónica é o da hiperactivação: um sistema de alerta que permanece ligado à hora de dormir, quando devia estar a atenuar-se. O corpo mantém-se em estado de vigilância — a nível fisiológico e mental —, incompatível com o adormecer.
A este mecanismo de base soma-se, muitas vezes, um segundo: o esforço para dormir. Quanto mais a pessoa tenta controlar o sono, mais o afasta, e a cama associa-se à frustração em vez do descanso. Percebe-se assim por que motivo os conselhos bem-intencionados de «relaxar» raramente bastam — e por que a insónia tende a perpetuar-se depois de o motivo inicial já ter desaparecido.
Quando justifica avaliação
Justifica-se avaliação quando a dificuldade com o sono se mantém no tempo, quando compromete o funcionamento durante o dia, ou quando leva a recorrer, de forma regular, ao álcool ou a medicação para adormecer. A insónia caminha, com frequência, a par da depressão e da ansiedade, em ambos os sentidos, pelo que a sua avaliação é também uma oportunidade para reconhecer o que possa estar por baixo.
O que a consulta avalia — e o que trata
A avaliação começa por perceber a história do sono e por excluir outras causas: uma perturbação do humor ou da ansiedade, uma apneia do sono, uma alteração da tiroide, o efeito de substâncias ou de outros medicamentos. Sem este passo, corre-se o risco de tratar o sintoma e deixar intacta a causa.
A intervenção de primeira linha para a insónia crónica não é farmacológica. É a terapia cognitivo-comportamental para a insónia, com eficácia demonstrada em revisões sistemáticas e recomendada pelas principais orientações clínicas. Os medicamentos para dormir têm um papel, mas limitado e sobretudo de curto prazo; em particular, as benzodiazepinas não são solução para uma insónia que se arrasta, pelo risco de tolerância e dependência que o uso prolongado acarreta.
Na nossa clínica, a insónia é avaliada com esta atenção ao que a alimenta — o comportamento, o humor, o corpo — para que o plano trate a causa e não apenas as noites.
Fontes
- Organização Mundial da Saúde. CID-11 — Classificação Internacional de Doenças, 11.ª revisão.
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Insomnia — Clinical Knowledge Summaries.
- Cochrane Database of Systematic Reviews — terapia cognitivo-comportamental para a insónia.
Revisto por Dra. Diana Malheiro Mota, médica psiquiatra.
Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação clínica individual. Não constitui diagnóstico nem recomendação de tratamento.