Diana Malheiro Mota

Área clínica

Dependências: quando o consumo deixa de ser uma escolha

Uma dependência raramente se anuncia. Instala-se aos poucos: o consumo que era social passa a regular o humor, depois a organizar o dia, e por fim a decidir por quem consome. Pode ser álcool, medicamentos para dormir ou para a ansiedade, outras substâncias — ou comportamentos, como o jogo.

Esta página descreve como se reconhece uma dependência, o que acontece no cérebro para que a força de vontade deixe de chegar, e em que momento se justifica uma avaliação especializada.

Sinais

Como se reconhece — os três sinais centrais

As classificações clínicas descrevem a dependência em torno de três eixos: a perda de controlo sobre o consumo (beber ou usar mais, e durante mais tempo, do que se pretendia); a prioridade crescente que o consumo ganha sobre o resto da vida — trabalho, relações, saúde; e a continuação do consumo apesar de já estar a causar dano evidente.

A estes eixos juntam-se sinais físicos que o corpo vai dando: a tolerância, quando é precisa uma quantidade cada vez maior para obter o mesmo efeito; e a abstinência, o mal-estar físico ou psíquico que aparece quando se reduz ou pára — tremores, suores, ansiedade, irritabilidade, insónia.

Há também sinais discretos, mas eloquentes: esconder ou desvalorizar o consumo, beber antes de sair para chegar «composto», guardar reservas, prometer parar a seguir a mais uma vez. As tentativas falhadas de reduzir são, por si só, um dos indicadores mais consistentes.

Nas dependências comportamentais, como o jogo, o padrão é o mesmo sem haver substância: episódios cada vez mais longos, dinheiro que desaparece, mentiras para proteger o comportamento e um alívio de curta duração seguido de culpa.

Ninguém escolhe ficar dependente — e sair raramente se consegue por força de vontade, sozinho.

Origem

Causas e factores

A dependência não é uma fraqueza de carácter — é uma alteração do funcionamento do circuito de recompensa do cérebro. As substâncias e os comportamentos aditivos activam este circuito com uma intensidade que as recompensas naturais não alcançam; com a repetição, o cérebro adapta-se, passa a antecipar e a exigir, e o consumo deixa de dar prazer para passar a evitar o desconforto.

Sobre este mecanismo comum actuam factores individuais: predisposição genética, idade de início precoce, ansiedade ou depressão não tratadas — que o consumo alivia à custa de agravar —, dor crónica, stress prolongado e contextos onde o consumo é constante ou normalizado.

É por isso que o tratamento não se resume a «parar». Trata-se o mecanismo, tratam-se as condições associadas e trata-se o contexto — pela ordem e ao ritmo que a avaliação clínica determinar.

Quando procurar ajuda

Quando justifica avaliação

Justifica-se procurar avaliação quando o consumo já interfere com o funcionamento — faltas, conflitos, perda de interesse, problemas de saúde — ou quando há tentativas repetidas de reduzir sem sucesso, por mais controlado que o consumo pareça visto de fora. Não é preciso «tocar no fundo» para pedir ajuda; quanto mais cedo, mais simples é o caminho.

Há um aviso clínico importante: a paragem abrupta de álcool ou de medicamentos como as benzodiazepinas, depois de consumo prolongado, pode ser perigosa. A redução deve ser planeada e acompanhada clinicamente — é exactamente para isso que serve a consulta.

Se tem dúvidas sobre como decorre a primeira consulta, veja como funciona.

Em caso de risco iminente para a sua segurança ou a de terceiros, contacte de imediato a linha SNS 24 (808 24 24 24) ou o 112.

A consulta

O que a consulta avalia

A consulta de psiquiatria avalia o padrão de consumo e a sua história, os sinais físicos de dependência, e as condições que tantas vezes andam ao lado dela — ansiedade, depressão, insónia — e que precisam de tratamento próprio para a recuperação se aguentar.

A partir daí constrói-se, em conjunto, um plano realista: pode incluir redução gradual programada, tratamento farmacológico de apoio, psicoterapia e articulação com estruturas especializadas quando fizer sentido. Sem julgamento e sem prazos impostos.

A equipa da clínica conhece esta área por dentro: a Dra. Diana Malheiro Mota e a psicóloga Dra. Filipa Melo Santos exercem no ICAD — Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências.

A psiquiatria online tem a duração de 60 minutos, com o valor de 90 €.

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Dúvidas frequentes

Perguntas frequentes

Bebo todos os dias, mas nunca fico embriagado. Posso estar dependente?

A dependência não se mede pela embriaguez, mas pelo padrão: a regularidade, a dificuldade em passar sem beber, o papel que o álcool ganhou no dia a dia. Um consumo diário que custa interromper justifica avaliação, mesmo sem episódios de embriaguez.

Tomo medicação para dormir há anos. Isso é uma dependência?

Pode ser. Alguns medicamentos, como as benzodiazepinas, induzem tolerância e dependência quando usados de forma prolongada. Não deve suspendê-los por conta própria — a avaliação clínica permite perceber a situação e, se necessário, planear uma redução gradual e segura.

É preciso parar completamente para começar o tratamento?

Não. O tratamento começa com a avaliação, não com a abstinência. O plano — incluindo se o objectivo é a redução ou a paragem, e a que ritmo — é definido em conjunto, de forma realista e clinicamente segura.

O tratamento de uma dependência pode ser feito online?

A avaliação e o acompanhamento psiquiátrico podem decorrer por videochamada, com articulação com estruturas presenciais sempre que a situação o exigir — por exemplo, em desabituações que precisem de suporte médico próximo. Essa necessidade é avaliada na consulta.

A minha família pode participar na consulta?

Se o paciente o desejar, sim. Nas dependências, o envolvimento de pessoas próximas é muitas vezes útil — mas a decisão é sempre de quem consulta, e a confidencialidade mantém-se.

Dra. Diana Malheiro Mota, médica psiquiatra

Dra. Diana Malheiro Mota

Médica psiquiatra · Fundadora

Especialista em Psiquiatria pelo Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho e directora clínica da Clínica Aprender. Conteúdo revisto clinicamente em Julho de 2026.

Fontes

  1. Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças, 11.ª revisão (CID-11) — perturbações devidas ao uso de substâncias e comportamentos aditivos. 2019.
  2. American Psychiatric Association. DSM-5-TR — Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais, 5.ª edição, texto revisto. 2022.
  3. Organização Mundial da Saúde. Global status report on alcohol and health. 2024.
  4. SICAD — Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências. Relatório anual: a situação do país em matéria de álcool e drogas.

Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação clínica individual. Não constitui diagnóstico nem recomendação de tratamento.

Ver também: Ansiedade · Depressão · Perturbações do sono

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