Há uma ideia romântica sobre deixar de beber: a do dia em que a pessoa «ganha juízo», decide, e pronto. A clínica conhece outra história. A mudança de um comportamento enraizado não é um interruptor — é um processo por fases, descrito há décadas pela investigação, em que cada etapa tem a sua lógica e o seu trabalho próprio.
O mapa: da negação à manutenção
O modelo clássico de Prochaska e DiClemente descreve o percurso em estádios. Na pré-contemplação, o problema ainda não é reconhecido — o excesso é dos outros, as consequências têm sempre outra explicação. Na contemplação, instala-se a ambivalência: a pessoa já vê o problema e, ao mesmo tempo, não se imagina sem o álcool. É a fase mais longa e mais honesta do processo.
Segue-se a preparação — pequenos ensaios, uma data pensada, uma conversa com o médico — e depois a acção: a mudança propriamente dita, com ou sem apoio farmacológico, conforme a avaliação. Por fim, a manutenção: a fase menos celebrada e mais decisiva, em que a nova rotina se defende dos velhos contextos.
A ambivalência não é falta de vontade — é a matéria-prima da mudança.
A recaída faz parte do mapa
O modelo tem uma implicação libertadora: a recaída não é o fim do processo, é uma das suas curvas. A maioria das pessoas que muda um comportamento aditivo passa pelo ciclo mais do que uma vez — e cada volta traz informação: em que contexto aconteceu, com que emoção, com que companhia. Tratar a recaída como fracasso moral só acrescenta vergonha; tratá-la como dado clínico encurta a volta seguinte.
Por isso é que a pergunta útil nunca é «tem força de vontade?», mas «em que fase está?» — porque cada fase pede uma resposta diferente.
O que a consulta faz com este mapa
A abordagem clínica moderna — a entrevista motivacional, desenvolvida por Miller e Rollnick — parte precisamente daí: em vez de sermões, trabalha a ambivalência da pessoa a partir das razões dela, ao ritmo dela. Confrontar alguém em pré-contemplação com ultimatos costuma produzir o efeito contrário; acompanhar alguém em preparação com um plano concreto multiplica as hipóteses.
Na consulta, avalia-se também o que rodeia a decisão: o grau de dependência física — que dita se a redução tem de ser gradual e clinicamente acompanhada —, o humor, a ansiedade e o sono, que tantas vezes decidem o desfecho. Deixar de beber raramente é só deixar de beber.
Fontes
- Prochaska, J. O. & DiClemente, C. C. (1983). Stages and processes of self-change of smoking: toward an integrative model of change. Journal of Consulting and Clinical Psychology.
- Miller, W. R. & Rollnick, S. Motivational Interviewing: Helping People Change. Guilford Press.
- Organização Mundial da Saúde. Alcohol — fact sheet.
Revisto por Dra. Diana Malheiro Mota, médica psiquiatra.
Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação clínica individual. Não constitui diagnóstico nem recomendação de tratamento.