Durante décadas, «dependência» implicava uma substância: álcool, tabaco, drogas. Hoje sabe-se que o circuito cerebral da recompensa pode ser capturado da mesma forma por comportamentos — e a classificação internacional de doenças já reconhece dependências onde não há molécula nenhuma.
O que já é diagnóstico — e o que ainda não é
A CID-11, a classificação da Organização Mundial da Saúde, reconhece hoje duas dependências comportamentais: a perturbação de jogo (o jogo a dinheiro/gambling) e a perturbação de jogos digitais (gaming). Esta inclusão não foi uma decisão simples — exigiu anos de evidência de que estes quadros reproduzem a estrutura clínica de uma dependência: perda de controlo, prioridade crescente e continuação apesar do dano.
E o resto — as redes sociais, as compras, a pornografia, o telemóvel? Aqui a honestidade científica importa: não são, hoje, diagnósticos formais. Mas os padrões problemáticos destes comportamentos partilham a mesma mecânica — os modelos científicos actuais descrevem como a antecipação da recompensa, a repetição e a perda de controlo se instalam pelo mesmo caminho neurobiológico. A ausência de rótulo não impede o sofrimento nem dispensa a avaliação.
A substância pode não existir; o circuito é o mesmo.
Os três sinais que se repetem
Em todas as dependências comportamentais, procuram-se os mesmos três eixos: a perda de controlo — episódios mais longos e frequentes do que o pretendido, tentativas falhadas de reduzir; a prioridade — o comportamento a empurrar o sono, o trabalho, as relações e as refeições para segundo plano; e a persistência apesar do dano evidente, negada ou minimizada.
Há ainda equivalentes da tolerância e da abstinência: a necessidade de sessões cada vez mais longas ou intensas para o mesmo efeito, e a irritabilidade, inquietação ou vazio quando o acesso falha.
Quando avaliar
O critério não é o número de horas — é a função e o custo. Justifica-se avaliação quando o comportamento organiza o dia, quando o sono e as obrigações cedem sistematicamente, quando há esconderijo e mentira, ou quando parar já foi tentado e não se conseguiu.
E vale a pena olhar para o que está por baixo: nas dependências comportamentais é frequente encontrar ansiedade, depressão ou PHDA por tratar — o comportamento é muitas vezes a anestesia de outra coisa. Tratar essa outra coisa faz parte da solução.
Fontes
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças, 11.ª revisão (CID-11) — perturbações devidas a comportamentos aditivos.
- Organização Mundial da Saúde. Addictive behaviours: gaming disorder — Q&A.
- Brand, M. et al. (2016). Integrating psychological and neurobiological considerations regarding the development and maintenance of specific Internet-use disorders (modelo I-PACE). Neuroscience & Biobehavioral Reviews.
Revisto por Dra. Diana Malheiro Mota, médica psiquiatra.
Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação clínica individual. Não constitui diagnóstico nem recomendação de tratamento.