Diana Malheiro Mota

Área clínica

Perturbações do sono: quando a insónia justifica avaliação

O sono não é tempo morto. É durante a noite que o cérebro consolida a memória, regula as emoções e faz a manutenção de que o dia seguinte depende. Quando o sono falha de forma persistente, falha essa manutenção — e o efeito sente-se no humor, na concentração, na paciência e na saúde física.

Esta página descreve como se manifesta a insónia — a perturbação do sono mais comum —, a relação de ida e volta entre o sono e a saúde mental, e em que momento deixa de fazer sentido «ir aguentando».

Sinais

Como se manifesta — muito para lá de «dormir mal»

A insónia tem três formas clássicas, que podem coexistir: dificuldade em adormecer, com a cabeça a acelerar no escuro; despertares a meio da noite, com dificuldade em retomar o sono; e o despertar precoce, ainda de madrugada, sem conseguir voltar a dormir. A estas junta-se o sono não reparador — dormir horas suficientes e acordar como se não tivesse dormido.

O critério clínico não está só na noite: está no dia seguinte. Fadiga, irritabilidade, dificuldade de concentração e de memória, sonolência, erros no trabalho ou ao volante — é este impacto diurno que distingue uma má noite de uma perturbação do sono.

Fala-se de insónia crónica quando a dificuldade acontece várias noites por semana e se mantém há meses. Nessa altura, o problema costuma já ter ganho vida própria: a pessoa deita-se a antecipar que não vai dormir, e essa antecipação, só por si, activa o estado de alerta que impede o sono. O quarto passa de lugar de descanso a lugar de luta.

Nem toda a má qualidade de sono é insónia. O ressonar intenso com pausas na respiração sugere apneia do sono; a necessidade imperiosa de mexer as pernas ao anoitecer sugere síndrome das pernas inquietas. São condições diferentes, com tratamentos diferentes — e distingui-las faz parte da avaliação.

O sono não é tempo perdido — é o trabalho nocturno de que o cérebro depende.

Origem

Causas e factores

O sono é dos primeiros sistemas a acusar o que se passa na saúde mental — e dos primeiros a agravá-la. A ansiedade dificulta o adormecer; a depressão fragmenta a noite e antecipa o acordar; e, no sentido inverso, a privação de sono torna qualquer quadro emocional mais difícil de regular. É uma estrada de dois sentidos.

Contribuem também os hábitos e o contexto: horários irregulares, trabalho por turnos, ecrãs e estimulação até tarde, cafeína, álcool — que ajuda a adormecer mas fragmenta a segunda metade da noite —, e alguns medicamentos. E contribui a própria biologia: a arquitectura do sono muda com a idade.

Quando a insónia se torna crónica, os comportamentos de compensação — deitar mais cedo, ficar na cama «a tentar», sestas longas — costumam alimentá-la em vez de a resolver. É por isso que o tratamento de primeira linha da insónia crónica não é um comprimido: é a terapia cognitivo-comportamental para a insónia, que desmonta este ciclo.

Quando procurar ajuda

Quando justifica avaliação

Justifica-se avaliação quando a dificuldade em dormir acontece várias noites por semana há mais de três meses, quando o impacto diurno é evidente, ou quando o sono se tornou uma fonte de ansiedade em si mesmo. Também justifica avaliação a suspeita de apneia — ressonar com pausas, cansaço desproporcionado — ou a insónia que acompanha alterações do humor.

Merece atenção particular o uso prolongado de medicação para dormir. Alguns destes medicamentos perdem eficácia com o tempo e criam dependência; a sua redução deve ser planeada clinicamente, nunca feita de um dia para o outro.

Se tem dúvidas sobre como decorre a primeira consulta, veja como funciona.

A consulta

O que a consulta avalia

A consulta reconstrói a história do sono: o padrão actual e o de antes, os horários, os hábitos, a medicação — incluindo a que se toma para dormir —, e o estado do humor e da ansiedade, porque tratar a insónia isolada do resto raramente resulta.

A partir da avaliação, o plano pode incluir intervenção comportamental estruturada, tratamento das condições associadas, ajuste ou redução programada de medicação, e o encaminhamento para estudo do sono quando há suspeita de apneia ou de outra perturbação específica. O objectivo não é apenas mais horas — é devolver ao sono o lugar de função automática, que não precisa de ser pensada.

A psiquiatria online tem a duração de 60 minutos, com o valor de 90 €.

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Dúvidas frequentes

Perguntas frequentes

Quantas horas é «normal» dormir?

Varia de pessoa para pessoa — a maioria dos adultos funciona bem entre sete e nove horas, mas há quem precise de menos e quem precise de mais. Mais importante do que o número é a qualidade: acordar restaurado e funcionar bem durante o dia.

Já tentei «higiene do sono» e não resultou. E agora?

É frequente. As regras de higiene do sono ajudam a prevenir, mas raramente chegam para resolver uma insónia crónica instalada — nessa fase, o ciclo de antecipação e alerta precisa de intervenção estruturada, como a terapia cognitivo-comportamental para a insónia, avaliada caso a caso.

Tomo um comprimido para dormir há muito tempo. Devo parar?

Não por conta própria. A paragem abrupta de alguns medicamentos para dormir pode causar um agravamento acentuado da insónia e outros sintomas de privação. A consulta avalia a situação e, se fizer sentido, desenha uma redução gradual e segura.

O álcool ajuda a adormecer. É um problema?

O álcool encurta o tempo até adormecer, mas fragmenta a segunda metade da noite e degrada a qualidade do sono. Usado como estratégia regular para dormir, tende a agravar a insónia e cria um hábito com riscos próprios.

Como se avalia o sono numa consulta por videochamada?

A avaliação da insónia é sobretudo clínica: história detalhada do sono, hábitos, medicação e estado emocional — tudo isto se faz plenamente por vídeo. Quando há suspeita de apneia ou de outra perturbação que exija estudo do sono, a consulta orienta esse encaminhamento.

Dra. Diana Malheiro Mota, médica psiquiatra

Dra. Diana Malheiro Mota

Médica psiquiatra · Fundadora

Especialista em Psiquiatria pelo Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho e directora clínica da Clínica Aprender. Conteúdo revisto clinicamente em Julho de 2026.

Fontes

  1. Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças, 11.ª revisão (CID-11) — perturbações do ciclo sono-vigília. 2019.
  2. Riemann, D. et al. The European Insomnia Guideline: an update on the diagnosis and treatment of insomnia. Journal of Sleep Research. 2023.
  3. American Psychiatric Association. DSM-5-TR — Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais, 5.ª edição, texto revisto. 2022.
  4. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Insomnia — Clinical Knowledge Summary.

Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação clínica individual. Não constitui diagnóstico nem recomendação de tratamento.

Ver também: Ansiedade · Depressão · Dependências

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