As benzodiazepinas — moléculas como o alprazolam, o lorazepam ou o diazepam — são medicamentos eficazes e úteis em situações específicas e por períodos curtos. O problema raramente está na molécula: está no uso prolongado, para o qual não foram pensadas.
Portugal é, de acordo com dados do INFARMED e da OCDE, um dos países da Europa com maior consumo destes fármacos. Vale por isso a pena compreender para que servem, como se instala a dependência, e como se reduzem quando é altura de o fazer.
Para que servem — e por quanto tempo
As benzodiazepinas actuam com rapidez sobre a ansiedade, a agitação e a insónia, e têm indicações legítimas: uma crise aguda, um período curto e delimitado, situações clínicas específicas. As orientações internacionais são, contudo, consistentes num ponto — a sua utilização deve ser, em regra, de curta duração, medida em semanas e não em meses ou anos.
A razão é simples: o benefício mantém-se no curto prazo, mas com o uso continuado o corpo adapta-se, e o que começou por ajudar passa a ser necessário apenas para manter o equilíbrio.
Como se instala a dependência
Com o uso prolongado desenvolve-se tolerância — a mesma dose faz cada vez menos efeito — e dependência física, que pode surgir mesmo com doses terapêuticas e sem qualquer intenção de «abusar» do medicamento. É uma dependência que se instala em silêncio, no seguimento de uma prescrição, e que muitas vezes só se torna evidente quando se tenta parar.
A dependência de benzodiazepinas instala-se muitas vezes em silêncio, no seguimento de uma prescrição — e sem qualquer intenção de abusar do medicamento.
Porque não se pára de repente
Interromper uma benzodiazepina de forma abrupta, depois de um uso prolongado, pode desencadear um síndrome de privação — com agravamento da ansiedade e da insónia para lá do ponto de partida, e, em casos mais graves, com risco de convulsões. É por isto que a redução nunca deve ser feita por conta própria: exige método e acompanhamento.
Como se reduz com segurança
A redução faz-se de forma gradual e individualizada, com um plano de desmame ajustado a cada pessoa — à dose, ao tempo de uso e à resposta ao longo do processo. Em determinadas situações, opta-se por converter para uma benzodiazepina de acção mais longa antes de iniciar a descida, de forma a suavizar a transição.
Reduzir o fármaco sem tratar aquilo que ele estava a silenciar tende a falhar. Por isso a abordagem inclui, a par do desmame, o tratamento da ansiedade ou da insónia que motivaram a prescrição — muitas vezes por via psicoterapêutica. É um processo que se faz devagar, sem metas rígidas, e que resulta melhor quando é acompanhado.
Quando avaliar
Vale a pena procurar avaliação quando o uso se prolonga por meses, quando a dose foi subindo para manter o mesmo efeito, quando o medicamento se tornou indispensável para dormir, ou quando se combina com álcool. Na nossa clínica, a redução de benzodiazepinas é conduzida com este duplo cuidado — o desmame seguro e o tratamento do que estava por baixo —, sempre em ritmo negociado com cada pessoa.
Fontes
- INFARMED — Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde. Consumo de benzodiazepinas em Portugal.
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Benzodiazepine and z-drug withdrawal — Clinical Knowledge Summaries.
- Direção-Geral da Saúde. Orientações sobre a utilização de benzodiazepinas.
Revisto por Dra. Diana Malheiro Mota, médica psiquiatra.
Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação clínica individual. Não constitui diagnóstico nem recomendação de tratamento.