Nas dependências, a atenção concentra-se quase sempre no momento de parar. Mas quem trabalha nesta área sabe que o mais difícil não é parar — é não voltar. E é precisamente aí, no terreno dos hábitos, dos contextos e das emoções que sustentavam o consumo, que a psicoterapia faz o seu trabalho.
Antes de mudar: trabalhar a ambivalência
Poucas pessoas chegam à consulta com a decisão feita. A maioria chega dividida — a querer e a não querer, ao mesmo tempo e com sinceridade. A entrevista motivacional, uma das abordagens com mais suporte nesta fase, não combate essa ambivalência com sermões: explora-a, devolve à pessoa as suas próprias razões para mudar e respeita o ritmo de quem decide.
Este ponto de partida importa porque a confrontação directa — o ultimato, a lição de moral — tem um historial conhecido: endurece a resistência de quem ainda não está pronto.
Durante e depois: o trabalho cognitivo-comportamental
A investigação apoia de forma consistente as intervenções cognitivo-comportamentais nas dependências. O trabalho é concreto: mapear as situações de risco — os lugares, as horas, as companhias, as emoções que disparam o impulso —, treinar respostas alternativas, e desmontar os pensamentos que abrem a porta («só hoje», «uma não conta», «mereço»).
Faz-se também prevenção da recaída no sentido literal: preparar o que fazer quando o impulso vier — porque vem — e transformar cada deslize, se acontecer, em informação para a volta seguinte, em vez de num veredicto sobre o carácter.
O difícil raramente é parar — é não voltar. É aí que a psicoterapia trabalha.
Em equipa com a medicina
A psicoterapia não substitui a avaliação médica numa dependência — articula-se com ela. O grau de dependência física, a segurança da paragem, o tratamento farmacológico de apoio e as condições associadas, como a depressão ou a ansiedade, pertencem ao plano médico; os padrões, os contextos e as competências pertencem ao plano psicoterapêutico. É a combinação que sustenta a mudança.
Na nossa clínica essa articulação é feita por dentro: psicologia e psiquiatria trabalham no mesmo processo, com o mesmo objectivo — que a mudança perdure no tempo.
Fontes
- Magill, M. & Ray, L. A. (2009). Cognitive-behavioral treatment with adult alcohol and illicit drug users: a meta-analysis of randomized controlled trials. Journal of Studies on Alcohol and Drugs.
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Alcohol-use disorders: diagnosis, assessment and management — guideline CG115.
- Miller, W. R. & Rollnick, S. Motivational Interviewing: Helping People Change. Guilford Press.
Revisto por Dra. Filipa Melo Santos, psicóloga clínica.
Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação clínica individual. Não constitui diagnóstico nem recomendação de tratamento.