Poucos diagnósticos são usados na linguagem comum com tanta ligeireza como este. Ter um dia melhor e outro pior, mudar de disposição ao longo da semana, ser uma pessoa de temperamento intenso — nada disto é perturbação bipolar.
A perturbação bipolar é uma condição definida, com critérios próprios, e distingui-la das oscilações normais do humor não é um detalhe: é o que separa um tratamento adequado de anos de sofrimento mal orientado.
O que é, ao certo
A perturbação bipolar caracteriza-se pela alternância entre episódios de humor elevado — mania ou hipomania — e, na maioria dos casos, episódios depressivos. O que a define não é a mudança em si, mas a natureza desses episódios: duram dias a semanas, representam uma alteração clara em relação ao funcionamento habitual da pessoa, e acompanham-se de sinais reconhecíveis.
No episódio de elevação do humor podem surgir uma diminuição marcada da necessidade de dormir, aceleração do pensamento e da fala, aumento da energia e da actividade, e uma tendência para decisões impulsivas com consequências. É a duração e a repercussão que distinguem estes períodos de um simples «estar bem-disposto».
Porque é tantas vezes reconhecida tarde
A pessoa raramente procura ajuda durante a elevação do humor — é nos episódios depressivos que o sofrimento a traz à consulta. Por isso, a perturbação bipolar é frequentemente confundida, no início, com uma depressão isolada, e podem passar anos até que a história completa se revele.
Esta distinção é decisiva porque o tratamento difere. Tratar como depressão simples um quadro que é bipolar pode não resolver — e, em certas situações, agravar o curso da doença. Reconstruir a história ao longo do tempo, incluindo os períodos em que a pessoa se sentiu invulgarmente bem ou acelerada, é parte central da avaliação.
É nos episódios depressivos que o sofrimento traz a pessoa à consulta. Reconstruir a história completa, incluindo os períodos de elevação, é o que permite o diagnóstico certo.
Quando justifica avaliação
Vale a pena procurar avaliação quando há episódios depressivos que se repetem, sobretudo se de início precoce, e quando existem períodos — ainda que curtos — de energia invulgarmente elevada, pouca necessidade de dormir e impulsividade. A história familiar de perturbação bipolar e as respostas atípicas a antidepressivos são também elementos que justificam um olhar mais atento.
O que a consulta avalia — e o que trata
A avaliação apoia-se numa história clínica cuidada e longitudinal, muitas vezes com a colaboração de quem convive com a pessoa, e na exclusão de outras causas médicas ou associadas a substâncias. O objectivo é ver o padrão ao longo do tempo, e não apenas o momento presente.
O tratamento assenta em estabilizadores do humor, com escolha criteriosa e acompanhamento próximo, a par de uma intervenção psicológica e psicoeducativa dirigida ao reconhecimento precoce das recaídas e à regularização do sono e das rotinas. É uma condição que se acompanha ao longo do tempo, e cujo prognóstico melhora de forma significativa com o tratamento certo e a continuidade do cuidado.
Uma nota sobre risco
A perturbação bipolar associa-se, nos episódios mais graves, a risco acrescido, incluindo de ideação suicida. Havendo pensamentos de morte ou de fazer mal a si próprio, a ajuda não deve esperar pela próxima consulta: contactar de imediato a linha SNS 24 (808 24 24 24) ou o 112.
Fontes
- Organização Mundial da Saúde. CID-11 — perturbações bipolares.
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Bipolar disorder — Clinical Knowledge Summaries.
- American Psychiatric Association. DSM-5-TR — Bipolar and Related Disorders.
Revisto por Dra. Diana Malheiro Mota, médica psiquiatra.
Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação clínica individual. Não constitui diagnóstico nem recomendação de tratamento.