Diana Malheiro Mota

Saúde mental perinatal

Psicofármacos na gravidez: decidir com evidência

20 de julho de 2026 · Assinado por Dra. Ana Teresa Pereira

Acontece todas as semanas nas consultas: uma mulher descobre que está grávida e, nesse mesmo dia, deixa a medicação psiquiátrica na gaveta — por medo, por instinto de protecção, por um conselho apressado. O gesto é compreensível e é, muitas vezes, a pior decisão disponível. Este é um tema para decidir com evidência e acompanhamento, não com medo.

O erro de contar só um dos riscos

A pergunta «este medicamento faz mal ao bebé?» está incompleta. A pergunta clínica completa é: «qual é o risco do medicamento — e qual é o risco da doença sem tratamento?» Porque a doença mental não tratada na gravidez também pesa: a depressão e a ansiedade graves associam-se a pior cuidado pré-natal, a maior risco de complicações e a um pós-parto mais difícil, com impacto na mãe e no bebé.

As recomendações internacionais são claras no método: a decisão é sempre individual, pesa os dois pratos da balança, e pertence à mulher informada, com o seu médico — não ao medo, nem à sala de espera, nem à internet.

Suspender a medicação de um dia para o outro, ao ver o teste positivo, é trocar um risco calculado por um risco às cegas.

O que a evidência permite dizer

Primeiro: parar de forma abrupta é, em regra, a pior opção — o risco de recaída sobe, e a recaída na gravidez é precisamente o que se quer evitar. Qualquer mudança deve ser planeada com o médico, idealmente antes da concepção, quando a gravidez se pode preparar.

Segundo: muitos fármacos psiquiátricos têm décadas de utilização e um perfil de segurança conhecido na gravidez — outros exigem ajuste ou substituição. A escolha depende do fármaco, da doença, da história da mulher e do trimestre. Não há resposta universal; há avaliação caso a caso, com fontes e sem alarme.

Terceiro: a amamentação tem o seu próprio capítulo — e também aí a maioria das situações tem solução compatível, decidida com informação e não com renúncia automática.

O momento certo para esta conversa

O melhor momento para falar de psicofármacos e gravidez é antes dela — a consulta pré-concepcional permite ajustar o tratamento com calma. O segundo melhor momento é já: se está grávida e toma medicação psiquiátrica, não a suspenda por conta própria; marque avaliação e decida acompanhada.

Fontes

  1. McAllister-Williams, R. H. et al. (2017). British Association for Psychopharmacology consensus guidance on the use of psychotropic medication preconception, in pregnancy and postpartum. Journal of Psychopharmacology.
  2. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Antenatal and postnatal mental health — guideline CG192.
  3. Howard, L. M. & Khalifeh, H. (2020). Perinatal mental health: a review of progress and challenges. World Psychiatry.

Revisto por Dra. Ana Teresa Pereira, médica psiquiatra.

Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação clínica individual. Não constitui diagnóstico nem recomendação de tratamento.

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