Diana Malheiro Mota

Saúde mental

O papel do psiquiatra no tratamento da obesidade

20 de julho de 2026 · Assinado por Dra. Catarina Marques Oliveira

Poucas pessoas pensam num psiquiatra quando pensam em tratar a obesidade. E no entanto, uma parte substancial dos tratamentos que falham, falham precisamente no território dele: na compulsão alimentar não diagnosticada, na depressão que desarma qualquer plano, no sono desregulado, na medicação que faz ganhar peso em silêncio.

Procurar o que está por baixo

A primeira tarefa do psiquiatra no tratamento da obesidade é diagnóstica. A ingestão alimentar compulsiva — episódios de comer grandes quantidades com sensação de perda de controlo — é uma perturbação clínica reconhecida, tratável, e frequentemente invisível: quem a vive raramente a relata por vergonha, e quem trata o peso raramente pergunta.

À compulsão somam-se os outros suspeitos do costume: a depressão, que rouba a energia de que qualquer mudança de hábitos precisa; a ansiedade, que come para se regular; a PHDA, cuja impulsividade também se senta à mesa; e o sono curto ou fragmentado, que desregula as hormonas do apetite. Nenhuma dieta trata isto — e isto derrota qualquer dieta.

Antes de perguntar «que dieta?», vale a pena perguntar «o que é que o peso está a carregar?».

A medicação também se pesa

Há um segundo papel, muito concreto: rever a medicação. Alguns fármacos usados em saúde mental podem contribuir para o aumento de peso — e a resposta certa nunca é suspender por conta própria, é avaliar alternativas com quem prescreve. Escolher, dentro da eficácia clínica, as opções com melhor perfil metabólico, e monitorizar o peso desde o início do tratamento, faz parte da boa prática psiquiátrica.

Uma equipa, um plano

O tratamento da obesidade funciona melhor como trabalho de equipa: a endocrinologia avalia e trata o lado metabólico e hormonal; a psiquiatria trata a compulsão, o humor, o sono e a medicação; a psicologia trabalha os padrões e a relação com a comida. Cada peça sustenta as outras.

Nesta clínica, essa articulação existe dentro do mesmo processo — o que evita o percurso habitual de anos a saltar entre consultas que não falam entre si. Se o peso tem sido uma luta antiga e repetida, a pergunta certa pode não ser mais uma dieta: pode ser uma avaliação completa.

Fontes

  1. Organização Mundial da Saúde. Obesity and overweight — fact sheet.
  2. Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças, 11.ª revisão (CID-11) — perturbação de ingestão alimentar compulsiva.
  3. Luppino, F. S. et al. (2010). Overweight, obesity, and depression: a systematic review and meta-analysis of longitudinal studies. Archives of General Psychiatry.

Revisto por Dra. Catarina Marques Oliveira, médica psiquiatra.

Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação clínica individual. Não constitui diagnóstico nem recomendação de tratamento.

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