Quando se fala de saúde mental e maternidade, o foco recai quase sempre na depressão pós-parto. É um foco justo, mas incompleto: a ansiedade, durante a própria gravidez, é frequente e, ainda assim, muitas vezes desvalorizada — tanto por quem a sente como por quem a rodeia.
Uma certa preocupação faz parte de esperar um filho. A questão é distinguir essa preocupação normal daquela que se torna excessiva, persistente e incapacitante.
Onde acaba a preocupação normal
Preocupar-se com a saúde do bebé, com o parto ou com a mudança de vida que se aproxima é esperado e adaptativo. Fala-se de ansiedade clínica quando essa preocupação passa a ser difícil de controlar, ocupa grande parte do dia, se acompanha de sintomas físicos — tensão, insónia, palpitações — e começa a interferir com o funcionamento e com o bem-estar.
Porque merece atenção
A saúde mental perinatal é influenciada pela conjugação de factores hormonais, biológicos, psicológicos e sociais próprios deste período. A ansiedade na gravidez merece atenção por si só, pelo sofrimento que causa, e também porque se associa a um risco acrescido de dificuldades no pós-parto. Reconhecê-la cedo é, muitas vezes, prevenir.
Uma certa preocupação faz parte de esperar um filho. A questão é distinguir essa preocupação normal daquela que se torna excessiva, persistente e incapacitante.
O receio do tratamento
Muitas grávidas hesitam em procurar ajuda por receio de que qualquer intervenção prejudique o bebé. É um receio compreensível, mas que não deve levar a que o sofrimento fique sem resposta. Grande parte das situações beneficia de acompanhamento psicológico, sem medicação. Quando esta é necessária, a decisão faz-se com base na evidência, ponderando riscos e benefícios de forma individual — porque não tratar também tem riscos.
Quando avaliar — e o que a consulta faz
Vale a pena procurar avaliação quando a ansiedade se torna difícil de controlar, quando perturba o sono, quando se acompanha de sintomas físicos persistentes, ou quando a grávida sente que a preocupação lhe está a retirar a vivência do momento. A avaliação distingue a ansiedade normal da que justifica intervenção, e ajusta a resposta a cada caso.
Na nossa clínica, a saúde mental perinatal é acompanhada com esta atenção às particularidades do período — e com o cuidado de não deixar por tratar, nem sobretratar, aquilo que uma avaliação atenta permite distinguir.
Fontes
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Antenatal and postnatal mental health (CG192).
- Organização Mundial da Saúde. Maternal mental health.
Revisto por Dra. Diana Malheiro Mota, médica psiquiatra.
Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação clínica individual. Não constitui diagnóstico nem recomendação de tratamento.