Entre as pessoas em tratamento por dependências, a investigação encontra Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção numa fracção substancial — muito acima do que se observa na população geral. A ligação não é acaso: é mecanismo. E tem uma consequência clínica directa: tratar a dependência sem ver a PHDA deixa o motor do problema a trabalhar.
Porque andam juntas
A PHDA não tratada cria as condições perfeitas para uma dependência se instalar. A impulsividade encurta a distância entre o querer e o fazer. A intolerância ao tédio e a procura de estímulo tornam irresistível tudo o que dá recompensa imediata — do álcool ao jogo. E a desregulação do sistema de recompensa, própria da PHDA, faz com que as substâncias «acertem» num circuito já sedento.
Depois há a automedicação: muitos adultos com PHDA por diagnosticar descobrem, por tentativa e erro, que certas substâncias parecem compor aquilo que sentem — a nicotina que concentra, o álcool que trava a cabeça acelerada ao fim do dia. Alívio de curto prazo, factura de longo prazo.
O dilema do diagnóstico
Diagnosticar PHDA num adulto com consumos activos é um desafio: a intoxicação e a abstinência imitam a desatenção, a inquietação e a impulsividade. A chave está na linha do tempo — a PHDA não surge aos trinta anos; os sinais devem estar presentes desde a infância, nos relatórios escolares, nas memórias de família, no padrão ao longo da vida. É essa história longitudinal que a avaliação reconstrói.
E o receio clássico — «dar estimulantes a quem tem uma dependência não é deitar gasolina no fogo?» — tem resposta na evidência: o tratamento adequado da PHDA, com escolha criteriosa do fármaco e acompanhamento próximo, não agrava o risco aditivo; o que o agrava, de forma consistente, é a PHDA deixada por tratar. Cada caso, ainda assim, é uma decisão clínica individual.
Na prática
Quando as duas condições coexistem, o plano é integrado: estabilizar o consumo, tratar a PHDA e trabalhar as competências que a impulsividade corroeu — pela ordem que a avaliação determinar. As duas melhoram em conjunto ou recaem em conjunto; raramente uma de cada vez.
Se se revê nesta descrição — dependência com uma vida inteira de desatenção, impulsividade e «potencial por cumprir» por trás —, vale a pena pôr a hipótese em cima da mesa numa avaliação especializada.
Fontes
- van Emmerik-van Oortmerssen, K. et al. (2012). Prevalence of attention-deficit hyperactivity disorder in substance use disorder patients: a meta-analysis and meta-regression analysis. Drug and Alcohol Dependence.
- Katzman, M. A. et al. (2017). Adult ADHD and comorbid disorders: clinical implications of a dimensional approach. BMC Psychiatry.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças, 11.ª revisão (CID-11).
Revisto por Dra. Diana Malheiro Mota, médica psiquiatra.
Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação clínica individual. Não constitui diagnóstico nem recomendação de tratamento.