Há pessoas que passam anos em dietas, nutricionistas e programas — e a falhar sempre no mesmo sítio: o episódio de compulsão que desfaz semanas de esforço. Quando por trás existe uma Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção por diagnosticar, o problema nunca esteve na disciplina. A investigação mostra que a PHDA aumenta de forma consistente o risco de perturbações do comportamento alimentar — sobretudo as que envolvem compulsão.
A impulsividade também se senta à mesa
Uma meta-análise de 2016 descreveu uma associação clara entre a PHDA e as perturbações alimentares, com destaque para a ingestão alimentar compulsiva e a bulimia. O elo é o mesmo que liga a PHDA às outras dependências: um sistema de recompensa ávido de estímulo imediato, associado a um travão dos impulsos que chega tarde.
A comida — sobretudo a muito palatável e doce — é das recompensas mais rápidas e acessíveis que existem. Para um cérebro com PHDA, o episódio de compulsão não é gula: é o circuito do impulso e da recompensa a disparar noutro alvo.
Não é gula nem falta de disciplina: é o mesmo circuito de impulso e recompensa a disparar noutro alvo.
O caos alimentar da desatenção
Além da impulsividade, a PHDA desorganiza a própria logística de comer. A desatenção faz saltar refeições — não por opção, por esquecimento — até a fome chegar em modo de urgência, quando já não há decisão ponderada possível. A dificuldade em registar os sinais internos do corpo faz passar ao lado da saciedade. E a desregulação emocional convida a usar a comida como calmante — o mais barato e o mais à mão.
O resultado é um padrão reconhecível: dias de restrição involuntária e caos de horários, noites de compulsão, culpa, nova promessa de controlo — e o ciclo a recomeçar.
Avaliar os dois lados
A consequência prática é directa: tratar uma perturbação alimentar sem reconhecer a PHDA que está por baixo condena o tratamento a recomeçar — e enche a pessoa de culpa por «não conseguir». No sentido inverso, tratar a PHDA sem olhar para o comportamento alimentar deixa por resolver um sofrimento com riscos físicos próprios.
A avaliação especializada olha para as duas condições no mesmo plano: a história de desatenção e impulsividade desde a infância, o padrão alimentar concreto, o humor, o sono. Quando as duas peças são vistas juntas, o quadro que parecia falta de força de vontade ganha finalmente uma explicação — e um tratamento com lógica.
Fontes
- Nazar, B. P. et al. (2016). The risk of eating disorders comorbid with attention-deficit/hyperactivity disorder: A systematic review and meta-analysis. International Journal of Eating Disorders.
- Katzman, M. A. et al. (2017). Adult ADHD and comorbid disorders: clinical implications of a dimensional approach. BMC Psychiatry.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças, 11.ª revisão (CID-11).
Revisto por Dra. Diana Malheiro Mota, médica psiquiatra.
Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação clínica individual. Não constitui diagnóstico nem recomendação de tratamento.